Ariadne Barkokébas
15/02/2016 | 09:44:58

Em 2010, fui diagnosticada com Esclerose Múltipla, doença neurodegenerativa crônica a qual uma de suas características é a fraqueza muscular. Lembro que na época da descoberta da doença o médico havia me dito que eu teria que me acostumar com a vida que eu tinha, que era apenas de caminhar do quarto para o banheiro. Ele me olhou, baixou os olhos e me disse “É, Ariadne, se acostume”. Aquele profissional de aproximadamente 36 anos, aos meus 26, falou com propriedade que eu me acomodasse a um prognóstico incompatível com meu âmago.
Bom, para alguma coisa positiva a teimosia se fez valer.
Claro que eu não iria me acostumar! Meu corpo tem limitações; meu espírito, não!
Busquei todas as informações que pudessem me empoderar sobre a doença e formas de tratamento para uma melhor qualidade de vida. E olha só, achei!
As caminhadas do quarto para o banheiro começaram a ficar menos dolorosas, ir na esquina a pé foi se tornando confortável, fazer pequenos percursos na esteira da academia iniciaram-se e a vontade de participar de uma corrida de rua se tornou uma meta.
Apoio e estímulo apareciam de todos os lados, das formas mais diversas, singelas e afáveis possíveis.
Com uns três meses de antecedência um amigo disse que iria acontecer a 3ª Corrida Eu Amo Recife e que seria noturna. Pois bem, coloquei pra mim que essa seria a minha primeira corrida ao ar livre. Chegou o dia e lá fui com queridos, mas a caminhada em si foi sozinha.
De fato, eu não sabia o tamanho emocional da significância daquele dia. Nos dois primeiros quilômetros meus pés começaram a queimar, a cabeça até pensou em parar, mas o coração pedia só mais um pouquinho de esforço, e lá fui.
Passo a passo. Inspira e expira. Olha pra frente e vai. E fui.
Caminhei 5km por mim.
Caminhei 5km por minha cidade.
Caminhei 5km por quem me apoiou.
Caminhei 5km por quem me desacreditou.
Caminhei 5km pra cruzar a linha de chegada, olhar para trás e ver que saúde e qualidade de vida depende daquilo que acreditamos de verdade, da nossa força interna (que, às vezes, nem sabemos o seu tamanho) e não de pequenas verdades que nos falam.
Ouvido de mercador e teimosia servem pra alguma coisa, acredite.
Apenas acredite :)

Ariadne Barkokébas